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quinta-feira, 12 de outubro de 2017

O VEGETARIANO

Por Francisco de Assis D. Pirola

Carlão dizia-se “avesso” a “essas coisas de espiritismo”. Junto a amigos espíritas, “preferia as suas convicções”, afirmava sempre.
Certa ocasião, dessas em que todos opinam ao mesmo tempo, discutia-se a alimentação dos espíritos. ─ Alimentam-se pela respiração, assimilando princípios vitais da atmosfera ─ dizia um apressado. Outro, ressaltava a “natureza fluídica” dos alimentos. E a conversa ia longe.
Chegado num bom churrasco, Carlão, inconformado, ironizava:
 Quer dizer que “lá em cima” não se come uma boa picanha?
Não, Carlão, espírito não come carne! ouvia da turma, quase em coro.
E o bom glutão, decepcionado, lamuriava-se:
Além de morto, vou “viver” de brisa! Se houver essa “tal vida” de que vocês tanto falam, vai ser difícil!
Não tem jeito, Carlão retrucava um dos amigos uma boa picanha, com gordura e tudo, mal passada, como você gosta... só encarnado. “Lá em cima”, como diz você, nada feito!
Por isso, espírita só faz churrasco com carne magra, regada a suco e refrigerante, ao som de música clássica dizia um brincalhão.
E a roda se desfez. Não o vimos mais, e acabamos por concluir que Carlão se afastara levado por “suas” convicções.
Tempos depois, numa reunião mediúnica, no Centro que o grupo frequentava, um dos amigos, identificou o espírito de Carlão, que ninguém sabia que havia desencarnado. Com naturalidade, iniciou o diálogo, como nos velhos tempos.
E aí, Carlão, como vai você?
O amigo desencarnado informou, então, que ali chegara “pra matar saudades”, e que estava pensando em reencarnar. Mas estava “preocupado”: “só havia conseguido vaga numa família de vegetarianos desabafou,  quase em tom de confidência.
Que bom, Carlão, disse-lhe o amigo dialogador em tom de incentivo e, recordando a conversa sobre o churrasco, ponderou assim você volta longe dos prazeres da carne. E disparou:
Vai topar?
  Claro! respondeu Carlão bem humorado vai que surge uma brecha...
E desapareceu, sem dar chance a qualquer outra insinuação.🔵
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Imagem: www.google.com. Acesso: 30/setembro/2012.
Formatação atualizada em: 05/outubro/2017.

sábado, 2 de setembro de 2017

PEQUENA HISTÓRIA

Pelo Espírito Neio Lúcio

Um dia, a Gota dÁgua, o Raio de Luz, a Abelha e o Homem Preguiçoso chegaram ao Trono de Deus.

O Todo-Poderoso recebeu-os, com bondade, e perguntou pelo que faziam.

A Gota dÁgua avançou e disse:

— Senhor, eu estive num terreno quase deserto, auxiliando uma raiz de laranjeira. Vi muitas árvores sofrendo sede e diversos animais que passavam, aflitos, procurando mananciais. Fiz o que pude, mas venho pedir-te outras Gotas dÁgua que me ajudem a socorrer quantos necessitam de nós.

O Pai sorriu, satisfeito, e exclamou:

— Bem-aventurada sejas pelo entendimento de minhas obras. Dar-te-ei os recursos das chuvas e das fontes.

Logo após, o Raio de Luz adiantou-se e falou:

— Senhor, eu desci... desci... e encontrei o fundo de um abismo. Nesse antro, combati a sombra, quanto me foi possível, mas notei a presença de muitas criaturas suplicando claridade. Venho ao Céu rogar-te outros Raios de Luz que comigo cooperem na libertação de todos aqueles que, no mundo, ainda sofrem a pressão das trevas.

O Pai, contente, respondeu:

—Bem-aventurado sejas pelo serviço à Criação. Dar-te-ei o concurso do Sol, das lâmpadas, dos livros iluminados e das boas palavras que se encontram na Terra.

Depois disso, a Abelha explicou-se:

—Senhor, tenho fabricado todo o mel, ao alcance de minhas possibilidades. Mas vejo tantas crianças fracas e doentes que te venho implorar mais flores e mais Abelhas, a fim de aumentar a produção...

O Pai, muito feliz, abençoou-a e replicou:

—Bem-aventurada sejas pelos benefícios que prestaste. Conceder-te-ei novos jardins e novas companheiras.

Em seguida, o Homem Preguiçoso foi chamado a falar. Fez uma cara desagradável e informou:

—Senhor, nada consegui fazer. Por todos os lados, encontrei a inveja e a perseguição, o ódio e a maldade. Tive os braços atados pela ingratidão dos meus semelhantes. Tanta gente má permanecia em meu caminho que, em verdade, nada pude fazer.

O Pai bondoso, com expressão de descontentamento, exclamou:

— Infeliz de ti, que desprezaste os dons que te dei. Adormeceste na preguiça e nada fizeste. Os seres pequeninos e humildes alegraram meu Trono com o relatório de seus trabalhos, mas tua boca sabe apenas queixar, como se a inteligência e as mãos que te confiei para nada valessem. Retira-te!Os filhos inúteis e ingratos não devem buscar-me a presença. Regressa ao mundo e não voltes a procurar-me enquanto não aprenderes a servir.

A Gota dÁgua regressou, cristalina e bela. O Raio de Luz tornou aos abismos, brilhando cada vez mais. A Abelha desceu zumbindo, feliz. O Homem Preguiçoso, porém, retirou-se muito triste.🔵
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(Do livro “Alvorada Cristã”, do Espírito Neio Lúcio,
psicografado por Chico Xavier, 10ª Ed., FEB, 1991, lição nº 3.)
Imagem:www.google.com. Acesso em: 21/junho/2014.
Formatação atualizada em: 02/setembro/2017.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

EXISTÊNCIA DE DEUS

Pelo Espírito Emmanuel

Conta-se que um velho árabe orava com tanto fervor e com tanto carinho, cada noite, que, certa vez, o rico chefe de grande caravana cha­mou-o à sua presença e lhe perguntou:
- Por que oras com tanta fé? Como sabes que Deus existe, quando nem ao menos sabes ler?
O crente fiel respondeu:
- Grande senhor, conheço a existência de Nosso Pai Celeste pelos sinais dele.
Como assim? — indagou o chefe, admirado.
O servo humilde explicou-se:
Quando o senhor recebe uma carta de pessoa ausente, como reconhece quem a escreveu?
- Pela letra.
Quando o senhor recebe uma jóia, como é que se informa quanto ao autor dela?
Pela marca do ourives.
O empregado sorriu e acrescentou:
- Quando ouve passos de animais, ao redor da tenda, como sabe, depois, se foi um carneiro, um cavalo ou um boi?
Pelos rastros — res­pondeu o chefe, surpreen­dido.
Então, o velho crente convidou-o para fora da barraca e, mostrando-lhe o céu, onde a Lua brilhava, cercada por multidões de estrelas, exclamou, respei­toso:
- Senhor, aqueles si­nais, lá em cima, não po­dem ser dos homens!
Nesse momento, o orgu­lhoso caravaneiro, de olhos lacrimosos, ajoelhou-se na areia e começou a orar também.🔵
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(Do livro "Pai Nosso", de Emmanuel,psicografado por Chico Xavier. Lição n° 2.)
Imagem: www.google.com. Acesso em: 23/novembro/2011.
Formatação atualizada em: 09/agosto/2017.

sábado, 7 de janeiro de 2017

O APARTE

Pelo Espírito Hilário Silva
'...quando alguém não sente o mal que pratica, em verdade carrega consigo a consciência morta. É um morto-vivo...'
Perante o enorme ajuntamento de sofredores desencarnados, no Plano Espiritual, o Dr. Bezerra de Menezes, apóstolo da Doutrina Espírita no Brasil, rematava a preleção.
Falara, com muito brilho, acerca dos desregramentos morais.
Destacara os males da alma e os desastres do espírito.
Dispunha-se à retirada, quando fino ironista o invectivou:
- Escute, doutor. O senhor disse que a calúnia é um braseiro no caluniador. Eu caluniei e nada senti. O senhor disse que o furto é um espinho no ladrão. Eu roubei e nada senti. O senhor disse que o destruidor de lares terrestres carrega a lâmina do arrependimento a retalhar-lhe o coração. Destruí diversos lares e nada senti. O senhor disse que o criminoso tem a nuvem do remorso a sufocá-lo. Eu matei e nada senti...
- Meu filho – disse o pregador -, que sente um cadáver quando alguém lhe incendeia o braço inerte?
- Nada – disse, rindo, o opositor sarcástico -, pois cadáver não reage.
E a conversação prosseguiu.
- Que sente um cadáver se lhe enterram um espinho no peito?
- Coisa alguma.
- Que sente um cadáver se o mergulham num lago de piche?
- Absolutamente nada, ora essa! O cadáver é a imagem da morte.
Doutor Bezerra fitou o triste interlocutor e, maneando paternalmente a cabeça, concluiu:
- Pois olhe, meu filho, quando alguém não sente o mal que pratica, em verdade carrega consigo a consciência morta. É um morto-vivo.🔵
_______________
(Do livro “A Vida Escreve”. Espírito Hilário Silva.
Psicografias de Chico Xavier e Waldo Vieira.
7ª Ed. Rio de Janeiro. FEB. 1992. 2ª parte. p.153/154.)
Imagem: www.google.com. Acesso em: 30/setembro/2012.
Formatação atualizada em: 07/janeiro/2017.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

'VOEM JUNTOS...MAS NUNCA AMARRADOS'



"Conta uma velha lenda dos índios Sioux, que, uma vez, Touro Bravo, o mais valente e honrado de todos os jovens guerreiros e Nuvem Azul, a filha do cacique, uma das mais formosas mulheres da tribo, chegaram de mãos dadas na tenda do velho feiticeiro da tribo e falaram: Nós nos amamos e vamos nos casar.

E nos amamos tanto que queremos um feitiço, um conselho, ou um talismã.

Alguma coisa que garanta que poderemos ficar sempre juntos. Que nos assegure que estaremos um ao lado do outro até a morte.

O velho sábios, ao vê-los tão jovens, tão apaixonados e tão ansiosos por uma palavra, disse: Tem uma coisa a ser feita, mas é uma tarefa muito difícil e sacrificada...

Tu, Nuvem Azul, deves escalar o monte ao norte dessa aldeia, e apenas com uma rede e tuas mãos caçar o falcão mais vigoroso do monte e traze-lo com vida, até o terceiro dia depois da lua cheia.

E tu, Touro Bravo, deves escalar a montanha do trono, onde encontrarás a mais brava de todas as águias. Somente com as tuas mãos e uma rede, deverás apanhá-la trazendo-a viva.

Os jovens abraçaram-se com ternura, e logo partiram para cumprir a missão recomendada. No dia estabelecido, na frente da tenda do feiticeiro, os dois esperavam com as aves dentro de um saco.

O velho pediu que, com cuidado, as tirassem dos sacos, e viu que eram belos exemplares...

E agora o que faremos?  Perguntou o jovem, nós as matamos e depois bebemos à honra de seu sangue? Ou cozinhamos e depois comemos o valor da sua carne?

Propôs a jovem.

Não!  Disse o feiticeiro. Apanhem as aves eas amarrem entre si pelas patas, com  essas fitas de couro.

Quando estiverem amarradas, soltem-nas, para que voem livres...

O guerreiro e a jovem fizeram o que lhes foi ordenado, e soltaram os pássaros...

A águia e o falcão tentaram alçar voo, mas apenas conseguiram saltar pelo terreno.

Minutos depois, irritadas pela incapacidade de voar, as aves jogavam-se uma contra a outra, bicando-se até se machucar.

E o velho disse: jamais esqueçam o que estão vendo...

Este é o meu conselho. Vocês são como a águia e o falcão... Se estiverem amarrados, um ao outro, ainda que por amor, viverão arrastando-se e, cedo ou tarde, começarão a machucar-se mutuamente.

Se quiserem que o amor entre vocês perdure... Voem juntos... “Mas nunca amarrados”."
*  *
'Vivei juntos, mas que haja espaço na vossa junção...
E que os ventos do céu dancem entre vós...
Amai-vos um ao outro, mas não façais do vosso amor um grilhão...
Que haja antes um mar ondulante entre as praias de vossas almas...
Cantai e dançai juntos, e sedes alegres, mas deixai cada um de vós estardes sozinho, assim como as cordas da lira são separadas e, no entanto, vibram na mesma harmonia...
Vivei juntos, mas não vos aconchegueis em demasia; pois as colunas do templo erguem-se separadamente, e o carvalho e o cipreste não crescem à sombra um do outro...
Agindo assim, juntos estareis até que as brancas asas da morte dissipem vossos dias...'
*  *  *
(Equipe de Redação do Momento Espírita, com base em história de autoria desconhecida e na poesia “Matrimônio”, de Khalil Gibram, em sua obra  "O Profeta". A publicação citada pode ser acessada em: http://www.mensagemespirita.com.br/livro/21871075/momento-espirita-vol4-federacao-espirita-do-parana .)
Imagem: www.google.com. Acesso em: 17/fevereiro/2016.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

O FAROLEIRO DESPREVENIDO


Pelo Espírito Irmão X
"...O médium cristão é sempre um faroleiro com as reservas de óleo das possibilidades divinas..."
O soldado Teofrasto, homem de excelente coração, fora nomeado faroleiro por Alcebíades, na expedição da Sicília, a fim de orientar as embarcações em zona perigosa do mar.

Por ali, rochedos pontiagudos esperavam sem piedade as galeras invigilantes. Ainda mesmo fora da tempestade, quando a fúria dos deuses não soprava sibilante sobre a Terra, derribando casas e arvoredo, os pequenos e grandes barcos eram como que atraídos aos penhascos destruidores, qual ovelhas precipitadamente conduzidas ao matadouro.

Quantos viajantes havia já perdido a vida e os bens na traiçoeira passagem? Quantos pescadores incautos não mais regressaram à benção do lar? Ninguém sabia.

Preservando, porém, a sorte de seus comandados, o grande general situou Teofrasto no farol que se erguia na costa, com a missão de iluminar o caminho equóreo, dentro da noite. Para garantir-lhe o êxito, mandou-lhe emissários com vasta provisão de óleo puro. O servidor, honrado com semelhante mandato, permaneceria no ministério da luz contra as trevas, defendendo a salvação de todos os que transitassem pelas águas escuras.

De início, Teofrasto desenvolveu, sem dificuldade, a tarefa que lhe competia. Findo o crepúsculo, mantinha a luz acesa, revelando a rota libertadora.

Quando os vizinhos, porém, souberam que o soldado guardava um coração terno e bondoso, passaram a visitá-lo, amiúde. Realmente estimavam nele a cordialidade e a doçura, mas o que procuravam, no fundo, era a concessão de óleo destinado às pequenas necessidades que lhes eram próprias. O soldado, a breve tempo, era cercado de envolventes apelos.

Antifon, o lavrador, veio pedir-lhe meio barril do combustível para os serões de sua fazenda. Eunice, a costureira, rogou-lhe duas ânforas cheias para terminar a confecção de algumas túnicas, além das horas do dia. Êubolo, o sapateiro, alegando que o pai agonizava, implorou-lhe a doação de alguns pratos de azeite, a fim de que o genitor não morresse às escuras. Crisóstomos, o fabricante de ungüentos, reclamou cinco potes destinados à manipulação de remédios. Corciro, o negociante, implorou certa cota mais elevada para sustento de algumas tochas.

Todos os afeiçoados das redondezas, interessados em satisfazer as exigências domésticas, relacionaram solicitações simpáticas e comoventes.

Teofrasto, atingido na sensibilidade, distribuiu o combustível precioso pela ordem das rogativas.

Não podia sofrer o quadro angustioso, afirmava. As requisições, no seu parecer, eram justas e oportunas.

Assim foi que, ao término de duas semanas, se esgotou a reserva de doze meses.

O funcionário não pôde comunicar-se facilmente com os postos avançados de comando e, tão logo se apagou o farol solitário, por várias noites consecutivas os penhascos espatifaram embarcações de todos os matizes.

Prestigiosos contingentes de tropas perderam a vida.

Confiados pescadores jamais tornaram ao ninho familiar.

Comerciantes diversos, portadores de valiosas soluções e problemas inquietantes da luta humana, desceram aflitos ao abismo do mar.

Alcebíades, naturalmente indignado, exonerou o servidor do elevado encargo, recomendando lhe fosse aplicadas as penas da lei.

O médium cristão é sempre um faroleiro com as reservas de óleo das possibilidades divinas, a benefício de todos os que navegam a pleno oceano da experiência terrestre, indicando-lhes os rochedos das trevas e descerrando-lhes o rumo salvador; todavia, quantos deles perdem a oportunidade de serviço vitorioso pela prisão indébita nos casos particulares que procedem geralmente de bagatelas da vida?
* * *
(Do livro “Contos e Apólogos”, ditado pelo
Espírito Irmão X ao médium Chico Xavier. 
3ª Ed. Rio de Janeiro. FEB. 1974. Lição nº 4. p.23 a 25.)
Imagem: www.google.com . Acesso em: 09/janeiro/2016.

terça-feira, 7 de julho de 2015

O MINISTRO SÁBIO

Pelo Espírito Neio Lúcio

"...Para que o bem possa reinar entre os homens, há de ser uma realidade positiva no campo do mal, tanto quanto a luz há de surgir, pura e viva, a fim de expulsar as trevas..."

Mateus discorria, solene, sobre a missão dos que dirigem a massa popular, especificando deveres dos administradores e dificuldades dos servos.

A conversação avançava, pela noite a dentro, quando Jesus, notando que os aprendizes lhe esperavam a palavra amiga, narrou, sorridente:

— Um reino existia, em cuja intimidade apareceu um grande partido de adversários do soberano que o governava. Pouco a pouco, o espírito de rebeldia cresceu em certas famílias revoltadas e, a breves semanas, toda uma província em desespero se ergueu contra o monarca, entravando-lhe as ações.

Naturalmente preocupado, o rei convidou um hábil juiz para os encargos de primeiro ministro do país, desejoso de apagar a discórdia; mas o juiz começou a criar quantidade enorme de leis e documentos escritos, que não chegaram a operar a mínima alteração.

Desiludido, o imperante substituiu-o por um doutrinador famoso. O tribuno, porém, conduzido à elevada posição, desfez-se em discursos veementes e preciosos que não modificaram a perturbação reinante.

Continuavam os inimigos internos solapando o prestígio nacional, quando o soberano pediu o socorro de um sacerdote que, situado em tão nobre posto, amaldiçoou, de imediato, os elementos contrários ao rei, piorando o problema.

Desencantado, o monarca trouxe um médico à direção dos negócios gerais, mas tão logo se viu em palácio, partilhando as honras públicas, o novo ministro afirmou, para conquistar o favor régio, que o partido de adversários da Coroa se constituía de doentes mentais, e fez disso propaganda tão ruinosa que a indisciplina se tornou mais audaciosa e a revolta mais desesperada.

Pressentindo o trono em perigo, o soberano substituiu o médico por um general célebre, que tomou providência drástica, arregimentando forças armadas nas regiões fiéis e mobilizando-as contra os irmãos insubmissos. Estabeleceu-se a guerra civil. E quando a morte começou a ceifar vidas inúmeras, inclusive a do temido lidador militar que se convertera em primeiro ministro do reino, o imperante, de alma confrangida, convidou um sábio a ocupar-se do posto então vazio. Esse chegou à administração, meditou algum tempo e deu início a novas atividades.

Não criou novas leis, não pronunciou discursos, não censurou os insurretos, não perdeu tempo em zombaria e nem estimulou qualquer cultura de vingança.

Dirigiu-se em pessoa à região conflagrada, a fim de observar-lhe as necessidades.

Reparou, aí, a existência de inúmeras criaturas sem teto, sem trabalho e sem instrução, e erigiu casas, criou oficinas, abriu estradas e improvisou escolas, incentivando o serviço e a educação, lutando, com valioso espírito de entendimento e fraternidade, contra a preguiça e a ignorância.

Não transcorreu muito tempo e todas as discórdias do reino desapareceram, porque a ação concreta do bem eliminara toda a desconfiança, toda a dureza e indecisão dos espíritos enfermiços e inconformados.

Mateus contemplava o Senhor, embevecidamente, deliciando-se com as idéias de bondade salvadora que enunciara, e Jesus, respondendo-lhe à atenção com luminoso sorriso, acrescentou para finalizar:

— O ódio pode atear muito incêndio de discórdia, no mundo, mas nenhuma teoria de salvação será realmente valiosa sem o justo benefício aos espíritos que a maldade ou a rebelião desequilibraram. Para que o bem possa reinar entre os homens, há de ser uma realidade positiva no campo do mal, tanto quanto a luz há de surgir, pura e viva, a fim de expulsar as trevas.
*  *  *
(Do livro "Jesus no Lar", do Espírito Neio Lucio,psicografado
por Chico Xavier. Lição n° 15. 36ª ed. FEB.)
Imagem: www.google.com . Acesso em: 07/julho/2015.
Formatação atualizada em:07/julho/2015.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

NO REINO DAS BORBOLETAS

Da Reencarnação
Irmão X

     À beira de um charco, formosa borboleta, fulgurando ao crepúsculo, pousou sobre um ninho de larvas e falou para as pequeninas lagartas, atônitas:
     - Não temais! Sou eu... uma vossa irmã de raça!... Venho para comunicar-vos esperança!...Nem sempre permanecereis coladas à erva do pântano! Tende calma, fortaleza, paciência!...Esforçai-vos por sucumbir aos golpes da ventania que, de quando em quando, varre a paisagem. Esperai! Depois do sono que vos aguarda, acordareis com asas de puro arminho, refletindo o esplender solar... Então, não mais vos arrastareis, presas ao solo úmido e triste. Adquirireis preciosa visão da vida! Subireis muito alto e vosso alimento será o néctar das flores... Viajareis deslumbradas, contemplando o mundo, sob novo prisma!... Observareis o sapo que nos persegue, castigado pela serpente que o destrói, e vereis a serpente que fascina o sapo, fustigada pelas armas do homem!...
     Enquanto a mensageira se entregava à ligeira pausa de repouso, ouviam-se exclamações admirativas:
     - Ah! não posso crer no que vejo!
     - Que misteriosa e bela criatura!...
     - Será uma fada milagrosa?
     - Nada possui de comum conosco...
     Irradiando o suave aroma do jardim em que se demorava, a linda visitante sorriu e continuou:
     - Não vos confieis à incredulidade! Não sou uma fada celeste! Minhas asas são parte integrante da nova forma que a Natureza nos reserva. Ontem vivia convosco; amanhã, vivereis comigo! Equilibrar-vos-eis no imenso espaço, desferindo vôos sublimes à plena luz! Libertadas do chavascal, elevar-vos-eis, felizes! Libertadas do chavascal, elevar-vos-eis, felizes!
Conhecereis a beleza das copas floridas e o saboroso licor das pétalas perfumadas, a delícia da altura e a largueza do firmamento!...
     Logo após, lançando carinhoso olhar à família alvoroçada, distendeu o corpo colorido e, voltando, graciosa, desapareceu.
     Nisso chega ao ninho a lagarta mais velha do grupo, que andava ausente, e, ouvindo as entusiásticas referências das companheiras mais jovens, ordenou, irritada:
     - Calem-se e escutem! Tudo isso é insensatez... Mentiras, divagações... Fujamos aos sonhos e aos desvarios. Nunca teremos asas. Ninguém deve filosofar... Somos lagartas, nada mais que lagartas. Sejamos práticas, no imediatismo da própria vida. Esqueçam-se de pretensos seres alados que não existem. Desçam do delírio da imaginação para as realidades do ventre! Abandonaremos este lugar, amanhã. Encontrei a horta que procurávamos... Será nossa propriedade. Nossa fortuna está no pé de couve que passaremos a habitar. Devorar-lhe-emos todas as folhas... Precisamos simplesmente comer, porque, depois, será o sono, a morte e o nada... nada mais...
     Calaram-se as larvas, desencantadas.
    Caiu a noite e, em meio à sombra, a lagarta-chefe adormeceu, sem despertar no outro dia. Estava ela completamente imóvel.
     As irmãs, preocupadas, observavam curiosas o fenômeno e puseram-se na expectativa.
Findo algum tempo, com infinito assombro, repararam que a orgulhosa e descrente orientadora se metamorfoseara numa veludosa falena, voejante e leve...
..................................................................
     Anotando a lição breve e simples, cremos que há muitos pontos de contacto entre o reino dos homens e o reino das borboletas.
**
Não guardes antipatia
Paz é luz na vida sã.
Inimigo de hoje em dia
Parente nosso amanhã.
(Álvaro Martins)
*
Por lei celeste possuis
Aquilo em que te desdobras;
Cada pessoa na vida
Descende das próprias obras
(Chiquito de Morais)
*
Não se queixe em circunstância alguma.
Lembre-se de que a vida e o tempo são concessões
de Deus diretamente a você, e, acima de
qualquer angustia ou provação,
a vida e o tempo responderão a você com a benção
da luz ou com a experiência da sombra, como
você quiser.
(André Luiz)
*  *  *
(Do livro “Idéias e Ilustrações”. Autores diversos.
Psicografia de Francisco Cândido Xavier. Lição nº 39 - Da Reencarnação.
Irmão X (Espírito Humberto de Campos). FEB.1978.
Imagem  http://www.google.com/ . Acesso em: 13/dezembro/2010.)
Formatação atualizada em : 05/junho/2015.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

A SALVAÇÃO INESPERADA

Pelo Espírito Meimei

Num país europeu, certa tarde, muito chuvosa, um maquinista, cheio de fé em Deus, começando a acionar a locomotiva com o trem repleto de passageiros para a longa viagem, fixou o céu escuro e repetiu, com muito sentimento, a oração dominical.

O comboio percorrei léguas e léguas, dentro das trevas densas, quando, alta noite, ele viu, à luz do farol aceso, alguns sinais que lhe pareceram feitos pela sombra de dois braços angustiados a lhe pedirem atenção e socorro.

Emocionado, fez o trem parar, de repente, e, seguido de muitos viajantes, correu pelos trilhos de ferro, procurando verificar se estavam ameaçados de algum perigo.

Depois de alguns passos, foram surpreendidos por gigantesca inundação que, invadindo a terra com violência, destruíra a ponte que o comboio deveria atravessar.

 O trem fora salvo, milagrosamente.

Tomados de infinita alegria, o maquinista e os viajores procuraram a pessoa que lhes fornecera o aviso salvador, mas ninguém aparecia. Intrigados, continuaram na busca, quando encontraram no chão um grande morcego agonizante. O enorme voador batera as asas, à frente do farol, em forma de dois braços agitados e caíra sob as engrenagens. O maquinista retirou-o com cuidado e carinho, mostrou-o aos passageiros assombrados e contou como orara, ardentemente, invocando a proteção de Deus, antes de partir. E, ali mesmo, ajoelhou-se, ante o morcego que acabava de morrer, exclamando em alta voz:

- Pai Nosso, que estás no céu, santificado seja o teu nome, venha a nós o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na Terra como no céu; o pão nosso de cada dia dá-nos hoje perdoa as nossa dívidas, assim como perdoamos aos nossos devedores, não nos deixes cair em tentação e livra-nos do mal, porque teu é o reino, o poder e glória para sempre. Assim seja.

 Quando acabou de orar, grande quietude reinava na paisagem.

Todos os passageiros, crentes e descrentes, estavam também ajoelhados, repetindo a prece com amoroso respeito. Alguns choravam de emoção e reconhecimento, agradecendo ao Pai Celestial, que lhes salvara a vida, por intermédio de um animal que infunde tanto pavor às criaturas humanas. E até a chuva parara de cair, como se o céu silencioso estivesse igualmente acompanhando a sublime oração.
*  *  *
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Nunca te percas da fé,
Mesmo largado sozinho.
Quem se desvia de Deus
Não acha o próprio caminho.
                                   Artur Candal
                                                                                                           
Deus tinge de verde a erva,
Mostrando um toda a extensão
Que nunca falta esperança
Para os caídos no chão!...
                                       Alfredo Souza

A oração é a nossa escada de intercâmbio com o céu.
                                                                                        João Bosco
*  *  *
(Do livro “Idéias e Ilustrações”. Autores diversos.
Psicografia de Francisco Cândido Xavier. Lição nº 06 - Da Fé. Meimei. FEB.1978.
Disponível também em: http://www.autoresespiritasclassicos.com/ .
Imagem:http://www.google.com/ Acesso em:10/outubro/2014.
Formatação atualizada em : 10.10.2014.

terça-feira, 18 de março de 2014

A CAÇADA DO RIBEIRÃO



Por Francisco de Assis Daher Pirola
(Singela homenagem ao Espírito Cornélio Pires)

Nhô Perácio, homem chegado às rudezas da terra, vez por outra achava de caçar macuco nas vizinhanças do “Ribeirão”, que, ao contrário do que dizia o nome, não passava de pequeno sítio em meio a alguns alqueires de mata densa, onde corria pequeno córrego.

Certa noite, numa dessas escapadas, “farejou” caça e não pensou duas vezes. Repara no alforje, vê que dá pra passar a noite e afunda mata adentro.

Horas depois, já saboreando um bom pedaço de carne assada, trazida numa lata com farofa, não pôde conter o espanto ao ouvir, bem próximo, alguém abrindo picada. Mal teve tempo de se colocar de pé, quando um facho de lanterna clareou seu rosto, seguido do aviso:

– “Queta” aí, Nhô Perácio, que é o compadre Zeca!

– Ora, ora meu compadre, era só o que faltava, você por aqui nessa hora?! – respondeu, surpreso, o caçador.

Morando num povoado distante dali, Compadre Zeca também gostava de dar a sua caçada. Só que, desta vez, viera parar nas bandas do “Ribeirão”, que, aliás, não era sua área costumeira.

Passado o incidente da chegada inusitada do companheiro, mais graveto é colocado na fogueira, esquentando a conversa. Afinal, não se viam há um bom tempo, nem notícias tinham um do outro. Comentavam, por isso, com animação, a feliz coincidência.

E, ao crepitar do fogo, de tudo um pouco conversavam, lembrando outras caçadas que tinham partilhado. Nhô Perácio lembrou até da “visagem” que, segundo diziam, surgia ali na época boa de caça e que o Compadre Zeca sempre considerou “história de caçador”.

Só que, naquela noite, ao contrário do que sempre dissera, o Compadre Zeca falava ao incrédulo companheiro:

– Sabe, compadre, eu agora acredito em tudo. “Aparição de gente” é possível, sim. Eu sei que é! – reforçava.

Nhô Perácio, achando medo nas palavras do outro, apontava a espingarda e, a seu modo, caçoava, às gargalhadas:

– Que nada compadre, essa história de “fantasma” é tudo invenção. E se aparecer... eu corto no tiro!

Compadre Zeca apenas sorria, e, complacente, com ares de quem dá conselho, falava:

– Compadre, compadre, olha que um dia você acaba vendo um de verdade...

E, discutindo o “causo”, puseram-se a caminho, pois logo o dia amanheceria e precisavam aproveitar o tempo.

Já nos primeiros albores, encerraram a caçada e pegaram a trilha de volta. Zeca seguiria a picada que abrira antes, para chegar mais depressa ao povoado. Nhô Perácio voltaria só. Despediram-se, e cada um seguiu seu caminho.

De volta pra casa, o velho caçador matutava no acontecido. Homem acostumado à dureza, Compadre Zeca, naquela noite, evitara usar a sua conhecida cartucheira. Não dera um só tiro. E sempre que algum animal caía na sua mira arranjava uma desculpa pra não atirar. Mas não era só isso - pensava - o compadre andava agora com mania de conselheiro. Parecia até Nhô Dalmo, com seus livros “complicados”, que falam desse “negócio” de morto que volta. Sempre crera somente nesta vida - meditava. Quanto à outra vida, dizia em voz baixa,“só depois que eu ver”. “Ou o Compadre Zeca amoleceu, ou tá ficando meio doido” - concluía amuado.

O sol já clareava forte quando chegou à casa. Nhá Norina chorava num canto da sala.

Antes mesmo de perguntar alguma coisa vê uma carta sobre a mesa. Pega o papel e lê apressado. Seu olhar vagueou, então, pela salinha toda. Sentiu-se cansado, muito cansado...

A carta comunicava a morte do Compadre Zeca, ocorrida dias antes, numa caçada pros lados da “Jaguatirica”.
* * *
Imagem: www.google.com . Acesso em: 21/junho/2012.
Texto e formatação atualizados em: 18.03.2014.
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Cornélio Pires - Dados Biográficos
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sábado, 3 de novembro de 2012

BONDADE E RENÚNCIA

Dr. Adolfo Bezerra  de Menezes - 29.08.1831 - 11.04.1900
Ramiro Gama

"[...] Abraçando-a, disse-lhe Bezerra:Não se apoquente, minha filha, vou ajudá-la. Confiemos no amor da Virgem, que vela por todos nós.[...]"

A companheira do abnegado médico já havia combinado com o amigo Cordeiro para cobrar aos que pudessem pagar à razão de cinco mil réis por consulente. O dinheiro não passaria pelas mãos de Bezerra e deveria ser encaminhado a D. Cândida. Bezerra sabia disto e concordou desde que recebesse apenas dos que estivessem em condições de pagar...

Certa vez, penetra no seu consultório da Farmácia Cordeiro uma pobre mulher com uma criança ao colo. Sentou-se e apresentou-lhe o filhinho para exame.

O aspecto da pobre mulher como o da criança traduzia miséria e fome.

Bezerra atendeu à criança. Sentiu-lhe o físico em mísero estado. E receitou, aconselhando à mão sofredora:

- Minha filha, dê a seu filho estes remédios de hora em hora. São remédios homeopáticos e, se desejar, pode comprá-los aqui mesmo...

- Comprá-los, doutor, com quê, se não tenho comigo nenhum níquel! Se eu e meu filho estamos até agora em jejum...

O bondoso médico olhou para a mãe sofredora. Seus olhos mansos e verdes, refletindo compaixão, encheram-se de pranto.

Ambos choravam!

O ambiente deveria ser tocante e vestido de luz e amor!

Abraçando-a, disse-lhe Bezerra: Não se apoquente, minha filha, vou ajudá-la. Confiemos no amor da Virgem, que vela por todos nós.

Procurou nos bolsos das calças e do paletó algum dinheiro e nada encontrou.

Pôs-se a pensar, olhando para cima, como se fizesse uma Prece muda e sentida.

De repente, fazendo-a sentar-se, sai e procura seu amigo Cordeiro, também manso e bom.

- Cordeiro, prometi-lhe não mexer no dinheiro das consultas, a fim de que você o encaminhe diretamente à minha esposa. Mas o caso de hoje é doloroso... Já rendeu alguma coisa?

- Nada, porque os doentes, até agora, são pobres e como sua ordem é para receber apenas dos que podem pagar...

- E o resultado de ontem, já o entregou?

- Não, está ainda comigo.

- Dê-me, então, este dinheiro e esperemos na proteção da Virgem, que há de nos mandar algum, mais tarde.

Cordeiro lhe atendeu. Bezerra penetra o consultório.

E, dirigindo-se à infeliz irmã em provas:

- Tome, minha filha, este envelope. Com o dinheiro que está aí, compre remédios, também leite e alimentos para seu filho.

A pobre mãe, de olhos surpresos, lacrimosos, lábios trêmulos, tartamudeia e nada pode dizer para lhe agradecer. Chora...

E Bezerra, abraçando-a:

- Nada de lágrimas, vamos, vá na santa Paz de Deus e que a Virgem a proteja e o seu filhinho. Ele há de ficar bom...

Assim atendida, a sofredora mãe deixa o consultório.

E, quando volta, da porta, para agradecer, ouve apenas a voz mansa e boa de Bezerra:

- Entre aquele que estiver em primeiro lugar.
*  *  *
(Do livro "Lindos Casos de Bezerra de Menezes".
Texto disponível em: http://www.universoespirita.org.br/ .
Acesso em: 11/maio/2011.)
Formatação atualizada em 03.11.2012.

domingo, 22 de abril de 2012

O GRITO DE CÓLERA


"[...] A cólera é força infernal que nos distancia

da paz divina.[...]"

Lembra-se do instante em que gritou fortemente, antes do almoço?

Por insignificante questão de vestuário, você pronunciou palavras feias em voz alta, desrespeitando a paz doméstica.

Ah! meu filho, quantos males foram atraídos por seu gesto de cólera!...

A Mamãe, muito aflita, correu para o interior, arrastando atenções de toda a casa. Voltou-lhe a dor de cabeça e o coração tornou a descompassar-se.

- As duas irmãs, que cuidavam da refeição, dirigiram-se precipitadamente para o quarto, a fim de socorrê-la, e duas terças partes do almoço ficaram inutilizadas.

Em razão das circunstâncias provocadas por sua irreflexão, o papai, muito contrariado, foi compelido a esperar mais tempo em casa, chegando ao serviço com grande atraso.

Seu chefe não estava disposto a tolerar-lhe a falta e recebeu-o com repreensão áspera.

Quem o visse, erecto e digno, a sofrer essa pena, em virtude da sua leviandade, sentiria compaixão, porque você não passa de um jovem necessitado de disciplina, e ele é um homem de bem, idoso e correto, que já venceu muitas tempestades para amparar a família e defendê-la. Humilhado, suportou as conseqüências de seu gesto impulsivo, por vários dias, observado na oficina qual se fora um menino vadio e imprudente.

Os resultados de sua gritaria foram, porém, mais vastos.

A Mãezinha piorou e o médico foi chamado.

Medicamentos de alto preço, trazidos à pressa, impuseram vertiginosa subida às despesas, e o papai não conseguiu pagar todas as contas de armazém, farmácia e aluguel de casa.

Durante seis meses, toda a sua família lutou e solidarizou-se para recompor a harmonia quebrada, desastradamente, por sua ira infantil.

Cento e oitenta dias de preocupações e trabalhos árduos, sacrifícios e lágrimas! Tudo porque você, incapaz de compreender a cooperação alheia, se pôs a berrar, inconscientemente, recusando a roupa que lhe não agradava.

Pense na lição, meu filho, e não repita a experiência.

Todos estamos unidos, reciprocamente, através de laços que procedem dos desígnios divinos. Ninguém se reúne ao acaso. Forças superiores impelem-nos uns para os outros, de modo a aprendermos a ciência da felicidade, no amor e no respeito mútuos.

O golpe do machado derruba a árvore de vez.

A ventania destrói um ninho de momento para outro.

A ação impensada de um homem, todavia, é muito pior.

O grito de cólera é um raio mortífero, que penetra o círculo de pessoas em que foi pronunciado e aí se demora, indefinidamente, provocando moléstias, dificuldades e desgostos.

Por que não aprende a falar e a calar, a benefício de todos?

Ajude em vez de reclamar.

A cólera é força infernal que nos distancia da paz divina.

A própria guerra, que extermina milhões de criaturas, não é senão a ira venenosa de alguns homens que se alastra, por muito tempo, ameaçando o mundo inteiro.

*  *  *
(Do livro ”Alvorada Cristã”, pelo Espírito Neio Lucio,
psicografia de Chico Xavier. 10ª ed. FEB. 1991. Cap. 26. p.113 - 115.)
Imagem: google. Acesso em: 21/abril/2012.