domingo, 12 de janeiro de 2014

VIVÊNCIA COM ESPIRITUALIDADE

Por Francisco de Assis Daher Pirola

“Quem quer que acredite haver em si alguma coisa
mais do que a matéria, é espiritualista.”
(KARDEC, ALLAN. Introdução ao Estudo da Doutrina Espírita.
In:“O Livro dos Espíritos”. 70ª Ed., 1989, FEB, Rio de Janeiro/RJ.)

O conceito de espiritualidade pode ser encontrado ainda no século VI a.C., época em que “[...] a ciência, a filosofia e a religião não se encontravam separadas” [...]”, e o objetivo maior era a busca da “natureza essencial ou da constituição real das coisas”, denominadas como ‘physis’, derivando daí o termo “física”, ou seja, “a tentativa de ver a natureza essencial de todas as coisas”. De fato, os sábios da época “[...] não possuíam sequer uma palavra para designar a matéria, na medida em que consideravam todas as formas de existência como manifestações da ‘physis’, dotadas de vida e espiritualidade[...]”. Segundo Tales de Mileto, “todas as coisas estavam cheias de deuses e Anaximandro encarava o universo como uma espécie de organismo mantido pelo ‘pneuma’, a respiração cósmica, à semelhança do corpo humano mantido pelo ar”. (CAPRA, FRITJOF. “O Tao da Física”, 2ª Ed., 1983, CULTRIX, SP.) (destacamos)­­

Todos almejamos viver a vida em sua plenitude. Para isso, estudamos, trabalhamos e nos capacitamos, provendo os recursos necessários aos nossos projetos de vida. E não medimos esforços para que isso aconteça. São atitudes naturais num meio em que a luta pela sobrevivência, principalmente num mundo globalizado, exige cada vez mais que nos transformemos, a cada amanhecer, em instrumentos viáveis de elevada e contínua produtividade. A tal ponto de não nos reconhecermos, se alijados dessa complexa engrenagem.

No entanto, precisando nos moldar a esse conceito de vida, vestimos, no cotidiano, uma espécie de redoma, através da qual enxergamos o outro e com ele nos relacionamos. Porém, na maioria das vezes esse anteparo tem o poder de isolar sentimentos, que não deixamos que se irradiem de nós ou não permitimos que cheguem até nós, tal a corrida vertiginosa que precisa ser vencida a cada instante.

Por esse caminho, chega-se ao que se pode chamar de quantificação da vivência, uma espécie desíndrome” do “vale à pena?”. Ou seja, antes de qualquer atitude que fuja ao roteiro estabelecido pela engrenagem massacrante que nos envolve no dia a dia, interroga-se: “vale à pena?”, ou, “valerá à pena?”.

Tal conjuntura inibe o senso de avaliação do que está em nosso entorno, limitando-nos a capacidade de pensar além dos paradigmas hoje estabelecidos, que não permitem vislumbrar nada além de uma massa crítica à qual nos submetemos e que nos serve de guia, e nos impede simplesmente de permear novos caminhos, principalmente quando estes nos conduzem a uma vivência mais alinhada com os conceitos de espiritualidade.

Como romper, então, essa cortina espessa, que obstrui, por assim dizer, a nossa visão de profundidade? Como adquirir o necessário e qualificado discernimento para transpor esse velame, liberando, de vez, as torrentes de um inexplorado manancial originalmente represado na alma?

Pietro Ubaldi, em a Grande Síntese, alerta:

[...] Está na hora de descer mais fundo no campo das causas. Mais do que da paciência do coletor de observações, a ciência precisa agora da síntese da intuição: além de gabinetes, de microscópios e telescópios, precisa acima de tudo de grandes almas, que saibam olhar desde seu próprio âmago, até o âmago dos fenômenos; saibam sentir, através das formas, a misteriosa substância que neles se oculta [...] De agora em diante a ciência deve dirigir-se para esse centro, sem o qual a máquina da vida não se movimenta, não existe meta, e num instante se arruína, caindo à mercê de princípios menos elevados.” (UBALDI, PIETRO. “A Grande Síntese”, págs. 245/246, 14ª Ed., 1985, FUNDÁPU, Campos/RJ.)

Mas o ser pensante só vai além se impulsionado por energias poderosas, que podem ter como representações o amor ou a dor, dois vórtices de forças transcendentes que, colocados em ação, levam a um transformismo incessante, suscitando força vivificante para novas realizações em planos mais elevados do raciocínio.

Como ensina a Doutrina dos Espíritos, codificada por Allan Kardec, a Terra, hoje mundo de expiação e prova, ascenderá, na escala espiritual, a mundo de regeneração. O momento que vivenciamos reflete os grandes ajustes próprios desse processo de profundas mudanças, possibilitando ao ser humano vôos maiores no plano do Espírito, o que requer urgente reorganização do roteiro que hoje seguimos.

Precisamos ter sede de espiritualidade, pois a Vida se realiza em dois planos: matéria e espírito (v. Elementos gerais do Universo: Livro dos Espíritos, Parte primeira, Cap. II, questão nº 27). Enquanto Espíritos encarnados, somos apenas passageiros em trânsito para o Plano Espiritual, dimensão onde vamos estagiar por algum tempo, angariar forças, novos conhecimentos e mérito para outra romagem terrena (nova encarnação), que poderá acontecer aqui mesmo, na Terra. Temos, assim, estar aptos ao grau de evolução do planeta (v. A Gênese, de Allan Kardec, cap. XVIII, item 27.), sendo, portanto, fundamental o devido equilíbrio entre matéria e espírito.

Nesse contexto, vivência com espiritualidade aparece como ferramenta preciosa para aqueles que desejam, realmente, usufruir os novos tempos da Era da Regeneração.

Esse ideal, porém, demanda esforço responsável, uma vez que as facilidades às quais estamos sujeitos diariamente nos aprisionam às correntes do materialismo exacerbado e do individualismo.

É preciso também romper a capa egocêntrica (a redoma) que nos impomos, superando nossas desavenças para com o mundo e conosco mesmo e avançar para além do círculo estreito das ninharias puramente humanas, sintonizando-nos, assim, com esse novo patamar de evolução espiritual, onde o Bem sobrepujará o mal.

É possível que se interrogue em que tratado está contida a “receita” para que isso se torne realidade: encontra-se no Evangelho do Cristo, manancial inesgotável de luz e sabedoria no qual podemos sustentar a nossa caminhada evolutiva em direção ao mundo regenerado.

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O EVANGELHO E A VIVÊNCIA COM ESPIRITUALIDADE:

Espiritualidade: S. João, cap. XVIII, vv. 33, 36 e 37;
Justiça: S. Mateus, cap. VII, vv. 1 e 2;
Violência: S. Mateus, cap. V, versículos 5; 9; 21 e 22;
Responsabilidade e ação: S. Lucas, cap. XII, vv. 47 e 48;
Vida conjugal: S. Marcos, cap. X, v. 19;
Relacionamento interpessoal: S. Mateus, cap. XXII, vv. 34 a 40;
Empregabilidade: S. Mateus, cap. VII, vv. 7 a 11;
Estresse no mercado de trabalho: S. Mateus, cap. X, vv. 9 a 15;
A luta pela sobrevivência: S. Mateus, cap. VI, vv. 19 a 21 e 25 a 34;
O uso da riqueza: S. Mateus, cap. XXV, vv. 14 a 30;
Solidariedade: S. Lucas, cap. X, vv. 25 a 37;
Caridade: S. Mateus, cap. VI, vv. 1 a 4;
Carência material: S. Mateus, cap. VI, vv. 19 a 21 e 25 a 34;
Carência espiritual: S. Mateus, cap. XI, vv. 28 a 30;
O poder da Fé: S.Mateus, cap. XVII, vv. 14 a 20.
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Imagem: Vista do Parque Ibirapuera -
São Paulo-SP-Brasil (www.google.com).
Acesso em: 31/dezembro/2013.

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