domingo, 5 de maio de 2013

NO CAMINHO DO AMOR


Por Francisco  de A. D. Pirola

"[...] − Descubro em teus olhos diferente chama e
assim procedo por amar-te."

Numa apologia à liberalidade costuma-se dizer que "o importante é ser feliz". Esta é a senha para a banalização da sexualidade, reduzida a simples objeto na sedutora vitrine do culto ao prazer. 

Nesse caudal vertiginoso debate-se parte de uma geração que vivendo sob novo paradigma de liberdade tudo considera normal, navegando na inversão de valores com a mesma tranquilidade com que atravessa o deserto das contradições, na ilusão de que tudo é possível, só despertando, muitas vezes, no limiar  do abismo.

Em Forças do Ser, música tema do 32° EMEES/DIJ/FEEES, o compositor André Pirola interroga:

“E o que você fará, amor, / do Amor que Deus deu pra você? / Pra quem você abrirá, amor, a porta do seu ser? / E o que você fará, amor, / do Amor que Deus deu pra você? / Pra quem você abrirá, amor, a porta? / Importa pra você.”

E aí, como é que "fica"?

Buscando um parâmetro para o entendimento dessa complexa questão do comportamento humano, procuramos inspiração no Exemplo do Jovem Nazareno, Guia e Modelo da Humanidade, indagando:

- Como procederia Ele diante de um desses apelos sensuais tão “naturais” em nossos dias?

e encontramos  um belíssimo texto do Espírito Irmão X, ditado ao médium Chico Xavier, constante do livro “Contos e Apólogos” (3ª Ed. Rio de Janeiro. FEB. 1974. Lição nº 18. p. 81 a 83).

Na lição, que reproduzimos a seguir, o autor nos conduz a profunda reflexão, mostrando, ao mesmo tempo, a rapidez com que se esvaem, e como são passageiras, as ilusões a que nos aferramos em meio à transitoriedade da vida física, sem nos darmos conta de que o Amor verdadeiro, indestrutível, que realiza de fato, deve ser uma edificação  do Espírito.

Vamos, então, ao texto: 

NO CAMINHO DO AMOR

Em Jerusalém, nos arredores do Templo, adornada mulher encontrou um nazareno, de olhos fascinantes e lúcidos, de cabelos delicados e melancólico sorriso, e fixou-o estranhamente.

Arrebatada na onda de simpatia a irradiar-se dele, corrigiu as dobras da túnica muito alva, colocou no olhar indizível expressão de doçura e, deixando perceber, nos meneios do corpo frágil, a visível paixão que a possuíra de súbito, abeirou-se do desconhecido e falou, ciciante:

− Jovem, as flores de Séforis encheram-me a ânfora do coração com deliciosos perfumes. Tenho felicidade ao teu dispor, em minha loja de essências finas...

Indicou extensa vila, cercada de rosas, à sombra de arvoredo acolhedor, e ajuntou:

− Inúmeros peregrinos cansados me buscam à procura do repouso que reconforta. Em minha primavera juvenil, encontram o prazer que representa a coroa da vida. E' que o lírio do vale não tem a carícia dos meus braços e a romã saborosa não possui o mel de meus lábios. Vem e vê! Dar-te-ei leito macio, tapetes dourados e vinho capitoso... Acariciar-te-ei a fronte abatida e curar-te-ei o cansaço da viagem longa! Descansarás teus pés em água de nardo e ouvirás, feliz, as harpas e os alaúdes de meu jardim. Tenho a meu serviço músicos e dançarinas, exercitados em palácios ilustres!...

Ante a incompreensível mudez do viajor, tornou, súplice, depois de leve pausa:

− Jovem, por que não respondes? Descobri em teus olhos diferentes chama e assim procedo por amar-te. Tenho sede de afeição que me complete a vida. Atende! Atende!...

Ele parecia não perceber a vibração febril com que semelhantes palavras eram pronunciadas e, notando-lhe a expressão fisionômica indefinível, a vendedora de essências acrescentou um tanto agastada:

− Não virás?

Constrangido por aquele olhar esfogueado, o forasteiro apenas murmurou:

− Agora, não. Depois, no entanto, quem sabe?!...

A mulher, ajaezada de enfeites, sentindo-se desprezada, prorrompeu em sarcasmos e partiu.
**
Transcorridos dois anos, quando Jesus levantava paralíticos, ao pé do Tanque de Betesda, venerável anciã pediu-lhe socorro para infeliz criatura, atenazada de sofrimento.

O Mestre seguiu-a, sem hesitar.

Num pardieiro denegrido, um corpo chagado exalava gemidos angustiosos.

A disputada marcadora de aromas ali se encontrava carcomida de úlceras, de pele enegrecida e rosto disforme. Feridas sanguinolentas pontilhavam-lhe a carne, agora semelhante ao esterco da terra. Exceção dos olhos profundos e indagadores, nada mais lhe restava da feminilidade antiga. Era uma sombra leprosa, de que ninguém ousava aproximar.

Fitou o Mestre e reconheceu-o.

Era o mesmo mancebo nazareno, de porte sublime e atraente expressão.

O Cristo estendeu-lhe os braços, tocado de intraduzível ternura e convidou:

− Vem a mim, tu que sofres! Na Casa de Meu Pai, nunca se extingue a esperança.

A interpelada quis recuar, conturbada de assombro, mas não conseguiu mover os próprios dedos, vencida de dor.

O Mestre, porém, transbordando compaixão, prosternou-se fraternal, e conchegou-a, de manso...

A infeliz reuniu todas as forças que lhe sobravam e perguntou, em voz reticenciosa e dorida:

-Tu?... O Messias nazareno?... O Profeta que cura, reanima e alivia?!... Que vieste fazer, junto de mulher tão miserável quanto eu?

Ele, contudo, sorriu benevolente, retrucando apenas:

− Agora, venho satisfazer-te os apelos.

E, recordando-lhe a palavra do primeiro encontro, acentuou, compassivo:

− Descubro em teus olhos diferente chama e assim procedo por amar-te.”
*  *  *
Imagem: www.google.com. Acesso em 24/fevereiro/2012.
Formatação e revisão atualizados em 05.05.2013.

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