segunda-feira, 4 de abril de 2011

AS CASAS DE JESUS

Colônia Nosso Lar
Ionilda V. Carvalho*

"Espera-se que o líder espírita, o dirigente espírita seja capaz
de administrar com poucos recursos e hoje não mais num modelo
 essencialmente assistencialista, não mais açambarcando todas as atividades,
mas que se torne um verdadeiro líder, capaz de delegar, envolver e promover."

Teresinha Covas Lisboa é professora e escritora de vários livros de gestão hospitalar e vem dedicando seu tempo ao tema de liderança nos serviços de saúde.

Nesse último trimestre a professora concedeu uma entrevista à Revista – Notícias Hospitalares – quando abordou o tema de seus estudos relatando que o os verdadeiros líderes são os que administram sem recursos, têm a confiabilidade da população e alcançam resultados em suas propostas de trabalho. E identificou as qualidades do líder:

- Saber ouvir, sem julgar;
- Ser autêntico;
- Construir um clima saudável;
- Partilhar poder;
- Desenvolver as pessoas.

Recordando Joanna de Angelis, que tem trabalhado em suas obras a importância da qualificação do trabalhador espírita, podemos reverter essas qualidades de liderança para as Casas Espíritas.

Espera-se que o líder espírita, o dirigente espírita seja capaz de administrar com poucos recursos e hoje não mais num modelo essencialmente assistencialista, não mais açambarcando todas as atividades, mas que se torne um verdadeiro líder, capaz de delegar, envolver e promover.

As obras da Ermance Dufaux, têm trazido subsídios para que essa liderança espírita esteja pautada na convivência, na troca e principalmente na consciência do dirigente de promover a felicidade e a libertação.

Alçar o Centro Espírita a uma Casa de Jesus é buscar caminhar de acordo com suas pegadas.

Saber ouvir e ouvir sem julgar nos reportam ao Atendimento Fraterno, ao acolhimento de Espíritos encarnados que chegam à Casa, que participam de suas atividades, que são trabalhadores e que muitas vezes, discriminados porque pensam ou agem fugindo ao padrão estabelecido como aceitável para o espírita, são afastados ou alijados do que deveria ser a “Praça de Convivência”, ou a Casa de Jesus.

Jesus conviveu com Espíritos titubeantes, indecisos, entregues ao mal e ao desequilíbrio, prostitutas, ladrões, e como os ouviu...

Ser autêntico é ser verdadeiro, ser claro em suas atitudes, sem dissimulações, sem meias palavras e sem manipulações de qualquer ordem. É compreender a necessidade de estabelecer relações saudáveis de troca, de experiências e de aprendizados, evitando melindres, evitando fofocas e muito menos falsos puritanismos. Ser autêntico é mergulhar em si mesmo e perceber a própria precariedade, a própria indigência e não carregá-la como um fardo, mas como uma meta de conquistas a realizar.

“Quantos se encontrem investidos da responsabilidade de dirigir e cooperar com os grupamentos do Espiritismo, priorizem como compromisso essencial de suas vinhas o ato corajoso de trabalhar pela formação de ambientes educativos, motivadores de confiança espontânea e de comprometimento do coração.”- Ermance Dufaux pela psicografia de Wanderley de Oliveira em sua nova obra – Escutando Sentimentos.

Esse o ambiente saudável a que se referia a Sra. Teresinha.

Continua Ermance: “Somente no clima de auto-amor elencamos condições essenciais para analisar as tarefas doutrinárias como campo de oportunidade e aprendizado, crescimento e libertação. Sem auto-amor e respeito aos semelhantes, vamos repetir velha cena do Evangelho para saber quem é o maior.”

Principalmente nas Casas de Jesus, não devem faltar o discernimento e o desprendimento a fim de entendermos que se estamos à frente de alguma tarefa é por resgate ou por preparação realizada anteriormente. Qualquer que seja essa causa, ela não nos deve impedir de promovermos a divisão de responsabilidades e de formarmos um grupo coeso e comprometido, capaz de administrar as necessidades materiais, estruturais e espirituais de uma Casa Espírita.

O feixe de varas deve ser sempre a imagem a acompanhar o dirigente.

Trocar opiniões, dividir responsabilidades, somar conhecimentos, transformam uma tarefa árdua e muitas vezes desgastante, principalmente pela precariedade de recursos financeiros, em um campo de aprendizado e crescimento. Onde cada um se compromete e se solidariza, e todos desmitificam a crença de que liderança é saber mais, ser o melhor ou o maior.

Partilhar poder é entender que “não existem pessoas mais ou menos valiosas no serviço de implantação do Bem na Terra. Existem resultados mais abrangentes e expressivos que outros, no entanto, não conferem privilégios ou são sinônimos de sossego interior aos seus autores.”(op.cit.)

Nada é mais difícil para nós do que reconhecer o valor alheio, a capacidade do outro porque isso nos remete a uma aparente deficiência nossa, aparente porque potencialmente somos todos igualmente capazes, no entanto talvez seja ainda mais espinhoso entender, que ouvir sem julgar, ser autêntico, construir um clima saudável e partilhar poder devem ser usados como clima de fundo para que possamos executar a tarefa maior a que Jesus nos concitou, que é desenvolver pessoas.

Promover crescimento é alçar outros ao patamar da felicidade e da libertação. É sair do narcisismo que segundo a Sra. Ermance se traduz “na rigidez, onde eu controlo, na competição, onde eu sou o maior, na imprudência, onde eu quero ou na prepotência, onde eu posso...”

[...]

Casas Espíritas devem traduzir acolhimento, atenção ao outro, “estímulo à autonomia e tolerância com os limites alheios”. Transformaremos assim o Centro Espírita em Casas de Jesus. Isso é trabalho de desprendimento, de renúncia, de esforço e de humildade. Demanda tempo e vontade.

Vemos aqui que os ensinamentos de Jesus, nesse tempo de transição, quando somos impulsionados à mudança de atitudes e à qualificação, chegam por caminhos diversos.

Os que estão “escutando sentimentos”, buscando crescer se transformarão em impulsionadores de virtudes e conquistas.

Vamos aceitar o desafio?
***
(*Médica, professora universitária e oradora espírita em Campos dos Goytacazes - RJ.)

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