sexta-feira, 15 de outubro de 2010

RESIGNAÇÃO E RESILIÊNCIA



Por Leonardo Pereira


"O homem que sofre é semelhante a um devedor de grande soma, a quem o credor dissesse: “Se me pagares hoje mesmo a centésima parte, darei quitação do resto e ficarás livre; se não, vou perseguir-te até que pagues o último centavo”. O devedor não ficaria feliz de submeter-se a todas as privações, para se livrar da dívida, pagando somente a centésima parte da mesma? Em vez de queixar-se do credor, não lhe agradeceria? (Evangelho Segundo o Espiritismo - Cap. V - item 12)".

A palavra resignação aparece com bastante frequência em palestras e livros espíritas. Também está presente nas obras básicas de Allan Kardec, especialmente no Evangelho Segundo o Espiritismo ─ Cap. V - “Bem aventurados os Aflitos”.

Esse capítulo aborda, inicialmente, a temática do sofrimento e das provas e expiações e suas origens nesta e noutras existências, causas de muitos de nossos problemas atuais, em vista de nossas escolhas e pela semeadura que fazemos ao longo da nossa esteira reencarnatória. No final, o capítulo aborda o suicídio. Contudo, destacaremos, aqui, o seu item 12 ─ “Motivos de Resignação”.

Resignação

Quando adentramos a Doutrina Espírita, muitas questões perpassam por nossas mentes. Logo nos deparamos com algum expositor nos orientando para sermos resignados. O que seria, então, resignação? Como compreender os dramas que a vida nos propõe, frutos ou não de nossas escolhas? Como proceder para ser considerado um indivíduo resignado?

Muitas vezes, entendemos resignação como aceitação do problema ou da dor, sem buscarmos alívio, respostas ou o entendimento para o que ocorre conosco. E também, principalmente, porque devemos ser resignados, questionando aonde isso vai nos levar.

“A resignação, ou ainda aceitação, na espiritualidade, na conscientização e na psicologia humana, geralmente se refere à experienciar uma situação sem a intenção de mudá-la. A aceitação não exige que a mudança seja possível ou mesmo concebível, nem necessita que a situação seja desejada ou aprovada por aqueles que a aceitam. De fato, a resignação é freqüentemente aconselhada quando uma situação é tanto ruim quanto imutável, ou, quando a mudança só é possível a um grande preço ou risco. [...] Noções de aceitação são proeminentes em muitas fés e práticas de meditação”. Por exemplo, a primeira nobre verdade do Budismo, "a vida é sofrimento", convida as pessoas a aceitarem que o sofrimento é uma parte natural da vida.” ( Wikipédia, a enciclopédia livre).

É justamente esse significado que complica o ensinamento. Se resignação é somente aceitação, sem expectativas de mudanças, ou, mesmo, aceitação pura e simples, fica muito fácil a derrapagem na acomodação, na inércia. É só dizer que “Deus quer assim”, e que nada pode mudar.

Se muitos dos nossos problemas não podem ser mudados nesta existência, podemos, entretanto, pela sua compreensão, mudar a forma de enfrentá-los. Ou aliviamos o tal “sofrer”, passando pela dor, sem lamentação ou reclamação constante (atitude essa, muitas vezes, responsável por mais dor), ou fazemos o problema ou a dor parecerem maior do que realmente são.

No que diz respeito à citação budista ─ “a vida é sofrimento” ─, é válido ressaltar que esse sofrer significa “passar por”, sofrer uma situação de dor. Não recebe, portanto, a conotação de lamentação, desesperação.

A Terra, por ser um mundo de provas e expiações, obviamente não é um paraíso de delicias. Estamos aqui para evoluir. A dor, nesse caso, quase sempre, transforma-se no impulso evolutivo necessário à nossa caminhada. Atrelada à Lei de Ação e Reação, ela nos convida, não raras vezes, ao reajuste, ao resgate de nossos débitos anteriores ou atuais.

Quando temos um problema, a dor que dele resulta é um fato - algo que acontece ou aconteceu. O sofrimento é a nossa resposta a esse fato, a nossa reação diante da dor, do fato, do problema.

É bom lembrar, quanto a isso, que a dor pode vir atrelada ao campo das causas e efeitos, mas o sofrimento é opcional, ou seja, não sofrer no sentido de não se lamentar, não se desesperar, equivalendo dizer, não perder a esperança. Em verdade, isso não nos retira o cadinho da dor, mas sublima os nossos sentimentos em relação ao fato.

“O homem pode abrandar ou aumentar o amargor das suas provas, pela maneira de encarar a vida terrena. Maior é o eu sofrimento, quando o considera mais longo. Ora, aquele que se coloca no ponto de vista da vida espiritual, abrange na sua visão a vida corpórea, como um ponto no infinito, compreendendo a sua brevidade, sabendo que esse momento penoso passa bem depressa [...]”. (ESE - Cap. V, item 13).

Diante desses apontamentos, podemos afirmar, sem sombra de dúvida, que resignação é dor sem sofrimento, momento em que o individuo, ante a imortalidade da alma, compreende o processo. Não pela subserviência, submissão ou inércia diante dos fatos, mas por uma oportunidade de crescimento que nos impulsiona à busca do melhor para nós e para o momento.

Resiliência

O caro leitor, nessa altura do texto, há de perguntar: - E a tal resiliência?

A resiliência começa justamente quando a dor nos encontra.

“Resiliência (psicologia) - A psicologia tomou essa imagem emprestada da física, definindo resiliência como a capacidade do indivíduo lidar com problemas, superar obstáculos ou resistir à pressão de situações adversas - choque, estresse, etc. - sem entrar em surto psicológico. Tais conquistas, face essas decisões, propiciam forças na pessoa para enfrentar a adversidade. Assim entendido, pode-se considerar que a resiliência é uma combinação de fatores que propiciam ao ser humano, condições para enfrentar e superar problemas e adversidades [...]”. (Wikipédia, a enciclopédia livre).

Quando o texto acima afirma que a Psicologia tomou emprestado o termo da Física, é porque resiliência é a “[...] Propriedade de um corpo de recuperar a sua forma original após sofrer choque ou deformação.” (Dic. online Priberam). Já na Medicina o termo se aplica quando um osso fraturado consegue retomar sua forma original. Podemos dizer, assim, que a resiliência se configura quando, diante de problemas, pressões e traumas, conseguimos superar os obstáculos “dando a volta por cima”, como diz popularmente. É a capacidade de organizar, avaliar e retomar o nosso caminho, com a percepção, porém,  de “dor” como fonte de crescimento, e não de sofrimento.

O que, então, nos faz resignados ou resilientes?

Podem ser considerados resignados e resilientes indivíduos que suportam grandes dramas na vida, ou passam por situações problemáticas constantemente e, mesmo assim, mantêm um olhar de paz e tranquilidade (considerando-se que os olhos são os espelhos da alma), superando os obstáculos que a vida coloca à sua frente, e dessa forma, superando a si mesmos.

O grande segredo, se é que podemos falar assim, encontra guarita na fé. A fé humana em si mesmo -autoconfiança. A fé divina no Criador, certeza absoluta de que não estamos sós, de que tudo passa e que nossas dores chegarão logo ao fim. Fé é a certeza de que o futuro nos reserva algo muito melhor. É a visão na vida futura, que glorifica os dias na Terra, de tantas provas e expiações. É visão mais além, que modifica o nosso comportamento diante das dores e aflições, e que, nos modificando, transforma tudo o que está à nossa volta.

Somos, portanto, artífices da nossa evolução espiritual, escultores de nós mesmos, tendo o cinzel da vontade como ferramenta para talhar as pedras que nos cobrem e dificultam a nossa existência, removendo, assim, os entulhos do passado para, então, lapidados e polidos, apresentarmos face nova diante do Criador e, afinal, podermos dizer, parafraseando o Apóstolo Paulo: “Já não sei se vivo no Cristo ou é o Cristo que vive em mim”.
(Leonardo Pereira é designer gráfico,
orador espírita e um dos trabalhadores do
Grupo Espírita Lamartine Palhano Junior - Vitória – ES.)
Imagem: www.google.com . Acesso em: 08/OUT/2010.

23 comentários:

  1. Muito bom!!! Me ajudou bastante!!!
    Um forte abraço, amigo!!!

    ResponderExcluir
  2. Oi, Lucimaria,
    Muita Paz!
    Ficamos felizes com o seu contato!
    Muito obrigado, e que as luzes da Espiritualidade continue iluminando os seus caminhos!
    Fraternalmente,
    Francisco.

    ResponderExcluir
  3. Parabéns pelo texto. Procurava por resignação e achei algo incrivel, a resiliência. Obrigada...Tudo de bom!!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá, Bianca,

      Obrigado pelo comentário.

      Muita Paz!

      Francisco.

      Excluir
  4. Francisco, estávamos fazendo a pouco o Evangelho no Lar e foi levantada a questão da "resignação" por ser entendida como forma de aceitação sem contestação. Buscamos maiores esclarecimentos e encontramos aqui um esclarecimento muito bom sobre o assunto. Queremos parabenizá-lo pela iniciativa deste blogger e que a espiritualidade continue a iluminá-lo e ajudá-lo neste feito. Muita Paz!

    ResponderExcluir
  5. Respostas
    1. Olá, Márcia:
      Agradecemos, sensibilizados, a simpática manifestação.
      Muita Paz,
      Francisco.

      Excluir
  6. Respostas
    1. Olá, Marcia,

      Mais uma vez, agradecemos a sua manifestação, muito simpática, e nos desculpamos por termos excluídos uma mensagem de Susi, referente à sua, mas não foi intencional. Foi uma "acidente" de trabalho.
      Muita Paz.
      Francisco.

      Excluir
  7. Caro Francisco,
    Extremamente inspirado e didático esse seu comentário (ensinamento) sobre tão complexo e sutil tema. Foram super-oportunas e de enorme ajuda as colocações feitas. Deus lhe pague!
    Camilo - São Paulo, Cap.

    ResponderExcluir
  8. Caro Leonardo,
    No comentário que fiz, por um lapso enderecei ao Francisco. Troquei os nomes! Aceite minhas escusas.
    Camilo - São Paulo-Cap.

    ResponderExcluir
  9. OBRIGADA PELO TEXTO E UMA EXPLICAÇÃO, DE COMO SEGUIR MINHA VIDA DIANTE DE TANTAS ATRIBULAÇÕES.
    LINDINALDA NOGUEIRA,

    ResponderExcluir
  10. Bom dia Francisco.
    Muito bom esse texto e lhe peço permissão para utiliza-lo em um palestra

    ResponderExcluir
  11. Oi, Jorge,
    Obrigado pela manifestação, que muito nos alegra. Não há problema em utilizá-lo, muito porque é uma forma de divulgação dos textos doutrinários.Solicito (lembrando, apenas...) citar autor e fonte da matéria.
    Um forte e fraternal abraço.
    Muita Paz!
    Francisco.

    ResponderExcluir
  12. Texto esclarecedor.
    Muito obrigada.

    ResponderExcluir
  13. Olá Daiane,

    Nós é que agradecemos a sua participação.

    Muita Paz,

    Francisco.

    ResponderExcluir
  14. Ninguém tem que ter resignação com o que lhe faz ou fez mal,inclusive com a perda de entes queridos.Se DEUS e amor ,tão bom e misericordioso penso que não deveria fazer sofrer aqueles que não merecem;os castigos deveriam ser somente para os que os merece.Por isso nenhuma doutrina religiosa tem o direito de orientar a resignação a ninguém.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Você tem toda a razão quando afirma que ninguém tem que resignar-se com o que lhe faz mal. Por isso recebemos, dia após dia, uma folha em branco no caderno para escrevermos o que quisermos nela, modificando assim o que não nos agrada. Não podemos evitar a perda de entes queridos, não é mesmo? Mas podemos mudar a nossa atitude diante dela. A forma como a encaramos nos traz mais ou menos sofrimento. Você também tem razão: Deus é amor, bom e misericordioso, por isso não faz ninguém sofrer, nem castiga, menos ainda quem não merece. Isto seria uma contradição e negação do seu amor de Pai. Nós escolhemos, através do livre arbítrio, seguir este ou aquele caminho, e é a consequência desta escolha que temos que aceitar. O espiritismo e a doutrina de amor do Cristo não impõem a ninguém que deva resignar-se. Assim como todas as nossas decisões, cabe a nós decidirmos o que fazer com a dor e o sofrimento em nossas vidas, semeando o que bem entendermos. Mas seremos nós e somente nós que colheremos a planta que surgir das sementes. Muita paz.

      Excluir
    2. Oi, Marta,

      Obrigado pela simpática manifestação.

      Muita Paz!

      Francisco.

      Excluir
  15. Obrigada pelo ensinamento Francisco. Resiliência é meu lema em 2017.

    ResponderExcluir
  16. Neste momento estou emocionado com o que li e vai me fazer muito bem este assunto

    ResponderExcluir
  17. Muito emocionante a matéria e importante para a vida Obrigado.

    ResponderExcluir
  18. Muito bem aplicado para esclarecimentos e tirando duvidas. Fiquei muito satisfeito!

    ResponderExcluir